O Vaticano: Uma Viagem pela História, Fé e Arte no Coração de Roma
O Estado da Cidade do Vaticano, o menor país do mundo, é um enclave murado dentro de Roma e o epicentro espiritual e administrativo da Igreja Católica Romana. Com uma história que se estende por quase dois milénios, o Vaticano é um tesouro de arte, arquitetura e fé, testemunha de momentos cruciais da história ocidental e um destino de peregrinação para milhões de pessoas.
A sua história remonta à antiguidade, a uma colina chamada Mons Vaticanus, uma área que na Roma Antiga se situava fora dos limites da cidade e era conhecida pelos seus cemitérios pagãos. A importância do local para o cristianismo nasceu com o martírio de São Pedro, um dos doze apóstolos de Jesus e considerado o primeiro Papa, que se acredita ter sido crucificado e sepultado nesta colina por volta de 64 d.C., durante o reinado do imperador Nero. Em honra a São Pedro, o imperador Constantino, o primeiro imperador romano a converter-se ao cristianismo, mandou construir uma basílica sobre o seu túmulo no século IV, transformando a Colina do Vaticano num local de veneração.
Dos Estados Papais à “Questão Romana”
Ao longo da Idade Média, o poder e a influência dos Papas cresceram, não apenas como líderes espirituais, mas também como governantes temporais. Através de doações de terras, notavelmente a “Doação de Pepino” em 756 pelo rei dos Francos, foram estabelecidos os Estados Papais, um conjunto de territórios na península Itálica governados diretamente pelo Papa. Estes estados, que chegaram a abranger uma porção significativa da Itália central, existiram por mais de mil anos, com Roma como sua capital.
No entanto, este poder temporal enfrentou desafios significativos, incluindo o “Papado de Avinhão” (1309-1377), um período em que a sede do papado foi transferida para Avinhão, na França, sob a influência da monarquia francesa. O regresso a Roma marcou um esforço para reafirmar a autoridade papal, mas o século XIX trouxe um desafio ainda maior: a unificação da Itália.
O movimento nacionalista italiano, conhecido como Risorgimento, culminou na anexação de Roma em 1870, pondo fim aos Estados Papais e estabelecendo a cidade como a capital do recém-formado Reino da Itália. O Papa Pio IX, recusando-se a reconhecer a autoridade do novo estado, declarou-se “prisioneiro no Vaticano”, dando início à “Questão Romana”, uma disputa política e diplomática que durou quase 60 anos, durante a qual os Papas se mantiveram confinados aos muros do Vaticano em protesto.
O Nascimento do Estado do Vaticano e o Século XX
A “Questão Romana” foi finalmente resolvida a 11 de fevereiro de 1929 com a assinatura do Tratado de Latrão entre a Santa Sé e o Reino da Itália, governado por Benito Mussolini. Este tratado reconheceu o Estado da Cidade do Vaticano como uma entidade soberana e independente, garantindo ao Papa plena soberania e jurisdição. Em troca, a Santa Sé reconheceu o Reino da Itália com Roma como sua capital.
O século XX apresentou novos desafios para o Vaticano. Durante a Segunda Guerra Mundial, sob o pontificado do Papa Pio XII, o Vaticano manteve uma controversa política de neutralidade. Após a guerra, durante a Guerra Fria, o Vaticano desempenhou um papel significativo na oposição ao comunismo, especialmente na Europa de Leste. O Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado pelo Papa João XXIII e concluído pelo Papa Paulo VI, foi um evento marcante que procurou modernizar a Igreja e abri-la ao diálogo com o mundo moderno.
Um Tesouro de Arte e Cultura
Para além da sua importância religiosa e política, o Vaticano é um dos mais importantes centros culturais do mundo. A sua paisagem é dominada pela majestosa Basílica de São Pedro, a maior igreja do cristianismo, um pináculo da arquitetura renascentista e barroca. A sua imponente cúpula, projetada por Miguel Ângelo, é um marco icónico no horizonte de Roma. A Praça de São Pedro, projetada por Gian Lorenzo Bernini, com as suas colunatas em forma de abraço, acolhe os fiéis de todo o mundo.
Os Museus do Vaticano abrigam uma das mais vastas e impressionantes coleções de arte do mundo, acumulada ao longo dos séculos pelos Papas. O seu acervo abrange desde antiguidades egípcias, gregas e romanas até obras-primas do Renascimento e arte contemporânea. O ponto alto da visita aos museus é, sem dúvida, a Capela Sistina, cujas paredes e teto foram adornados com frescos de artistas como Botticelli, Perugino e, mais notavelmente, Miguel Ângelo. Os seus frescos no teto, retratando cenas do Gênesis, e o monumental “Juízo Final” na parede do altar, são considerados obras-primas da arte ocidental.
Atualmente, o Vaticano continua a ser a sede da Igreja Católica, com o Papa a exercer a sua autoridade espiritual sobre mais de um bilhão de católicos em todo o mundo. É um estado soberano com a sua própria moeda, selos, estação de rádio e corpo de segurança, a Guarda Suíça. Mais do que um pequeno país, o Vaticano é um símbolo duradouro de fé, um repositório de história e um testemunho do génio criativo humano, atraindo visitantes de todas as crenças e origens para se maravilharem com a sua grandiosidade e o seu legado.
Basílica de São Pedro
Uma Obra de Escala e Esplendor Divinos
Localizada na Cidade do Vaticano, a Basílica de São Pedro (Basilica di San Pietro in Vaticano) é a maior igreja do mundo e o centro espiritual de milhões de católicos. A sua escala, opulência e a concentração de obras-primas de génios do Renascimento e do Barroco são avassaladoras.
A experiência começa na Praça de São Pedro (Piazza San Pietro), projetada por Gian Lorenzo Bernini. As suas famosas colunatas semicirculares, coroadas por 140 estátuas de santos, estendem-se como braços abertos, simbolizando o acolhimento da Igreja à humanidade. No centro da praça, ergue-se um obelisco egípcio, trazido para Roma pelo imperador Calígula.
A fachada da basílica, projetada por Carlo Maderno, é colossal e prepara o visitante para a imensidão do interior. Acima de tudo, domina a paisagem de Roma a magnífica cúpula (a Cúpula de São Pedro), uma obra-prima da engenharia projetada por Miguel Ângelo.
Ao entrar, a vastidão do espaço é impressionante. A nave principal estende-se por mais de 180 metros, sob um teto abobadado e ricamente decorado. O interior é um museu de valor incalculável, albergando algumas das obras de arte mais famosas do mundo:
- A Pietà de Miguel Ângelo: Logo à direita da entrada, encontra-se esta escultura icónica e comovente de Maria a segurar o corpo de Cristo. Miguel Ângelo esculpiu-a quando tinha apenas 24 anos.
- O Baldaquino de Bernini: No centro da basílica, diretamente sob a cúpula, ergue-se um monumental dossel de bronze torcido com quase 30 metros de altura. Esta obra-prima barroca de Bernini marca o altar principal, que por sua vez está posicionado diretamente sobre o túmulo de São Pedro.
- A Cátedra de São Pedro (Cadeira de São Pedro): Na abside, no fundo da basílica, encontra-se outra obra extravagante de Bernini, um relicário de bronze dourado que envolve um trono de madeira que se acredita ter pertencido ao apóstolo.
Um Monumento Construído sobre a Fé
A história da basílica é uma saga de fé, poder e arte que se estende por quase 1700 anos.
- O Túmulo de São Pedro e a Antiga Basílica: A tradição cristã sustenta que o apóstolo Pedro foi martirizado e sepultado no local onde hoje se ergue a basílica, que na altura era a encosta do Circo de Nero. No século IV, após legalizar o cristianismo, o imperador Constantino ordenou a construção de uma grande basílica sobre o túmulo do apóstolo. Esta “Antiga Basílica de São Pedro” foi, durante mais de 1.000 anos, o principal centro de peregrinação do Ocidente.
- A Necessidade de uma Nova Basílica: No final do século XV, a antiga basílica, com mais de um milénio, estava em ruínas. Em 1506, o Papa Júlio II tomou a decisão audaciosa de a demolir e construir no seu lugar um novo templo, mais grandioso do que qualquer outro já visto.
- Um Século de Génios (1506-1626): A construção da nova basílica foi um projeto colossal que durou 120 anos e envolveu os maiores arquitetos e artistas da história de Itália.
- Donato Bramante foi o arquiteto original, que projetou uma igreja em forma de cruz grega (com braços de igual comprimento).
- Após a sua morte, o projeto passou pelas mãos de vários arquitetos, incluindo Rafael Sanzio.
- Em 1547, um Miguel Ângelo com mais de 70 anos assumiu a liderança. Ele simplificou o plano de Bramante e projetou a magnífica cúpula, a sua maior realização arquitetónica, embora não a tenha visto concluída.
- No início do século XVII, Carlo Maderno alterou o plano para uma cruz latina (com uma nave mais longa) para acomodar mais fiéis e projetou a fachada que vemos hoje.
- Finalmente, Gian Lorenzo Bernini, o grande mestre do Barroco, passou quase 50 anos a trabalhar na basílica, concluindo a sua decoração interior (com obras como o Baldaquino) e projetando a espetacular Praça de São Pedro.
A nova Basílica de São Pedro foi finalmente consagrada em 18 de novembro de 1626, exatamente 1300 anos após a consagração da primeira basílica por Constantino. Hoje, permanece não só como um monumento de fé, mas como o apogeu da realização artística do Renascimento e do Barroco.
Museus do Vaticano
Um Tesouro da Humanidade
Os Museus do Vaticano (Musei Vaticani) não são apenas um museu, mas um vasto conjunto de galerias, salas e pátios que abrigam uma das mais extraordinárias coleções de arte e artefactos da história da humanidade. Localizados dentro da Cidade do Vaticano, contêm as vastas coleções acumuladas pelos Papas ao longo dos séculos.
O percurso através dos museus estende-se por vários quilómetros e leva o visitante numa viagem cronológica e temática pela história da arte, desde o antigo Egito até à arte religiosa moderna. Embora todo o complexo seja impressionante, algumas das suas galerias e obras-primas são mundialmente famosas:
- Capela Sistina: O ponto culminante e a joia da coroa dos museus. A capela é famosa em todo o mundo pelos seus frescos, pintados pelos maiores artistas do Renascimento. O teto, com a icónica cena da “Criação de Adão”, e a parede do altar, com o impressionante “Juízo Final”, são obras-primas de Miguel Ângelo que mudaram para sempre o curso da arte ocidental.
- Estâncias de Rafael (Stanze di Raffaello): Um conjunto de quatro salas de receção papais, cujas paredes foram decoradas com magníficos frescos por Rafael Sanzio. A mais famosa é a “Escola de Atenas”, uma representação idealizada dos maiores filósofos da antiguidade.
- Pátio do Belvedere (Cortile del Belvedere): Aqui encontram-se algumas das mais importantes esculturas clássicas da coleção papal, incluindo o “Grupo de Laocoonte”, uma dramática escultura helenística que retrata um sacerdote troiano e os seus filhos a serem atacados por serpentes marinhas, e o “Apolo Belvedere”.
- Galeria dos Mapas: Um corredor com 120 metros de comprimento, cujas paredes estão cobertas com 40 mapas topográficos detalhados de Itália, pintados no século XVI. O teto abobadado é igualmente deslumbrante.
- Museu Egípcio Gregoriano: Alberga uma vasta coleção de artefactos do antigo Egito, incluindo sarcófagos, múmias e papiros.
- Escadaria em Espiral de Bramante: Uma espetacular escadaria em dupla hélice projetada por Giuseppe Momo em 1932 (inspirada numa original de Bramante), que permite que as pessoas subam e desçam sem nunca se cruzarem.
A Coleção dos Papas
A história dos Museus do Vaticano começou no início do século XVI com uma única escultura.
- A Semente da Coleção (1506): A origem dos museus data de 14 de janeiro de 1506, quando a escultura do “Grupo de Laocoonte” foi descoberta num vinhedo em Roma. O Papa Júlio II, um grande patrono das artes, comprou-a imediatamente e colocou-a em exposição pública no Vaticano. Este ato de adquirir uma obra de arte e torná-la acessível ao público é considerado o nascimento dos Museus do Vaticano.
- Crescimento ao Longo dos Séculos: A partir de Júlio II, os papas seguintes continuaram a expandir a coleção. Durante o Renascimento e o Barroco, encomendaram obras aos maiores artistas da época (como Rafael e Miguel Ângelo) para decorar os seus aposentos e capelas. Em paralelo, a coleção de antiguidades greco-romanas cresceu com novas escavações e aquisições.
- Abertura ao Grande Público: Embora a coleção já existisse há mais de 250 anos, foi na segunda metade do século XVIII que os museus começaram a ser organizados de forma mais sistemática e abertos ao público em geral, em linha com o espírito do Iluminismo. Os Papas Clemente XIV e Pio VI criaram o Museu Pio-Clementino, o núcleo da coleção de antiguidades que vemos hoje.
- Expansão Contínua: Ao longo dos séculos XIX e XX, a coleção continuou a expandir-se. Foram criados novos museus dedicados a diferentes áreas, como o Museu Egípcio (1839), o Museu Etrusco (1837), o Museu Missionário-Etnológico (1927) e, mais recentemente, a Coleção de Arte Religiosa Moderna (1973), que inclui obras de artistas como Van Gogh, Matisse e Dalí.
Hoje, os Museus do Vaticano são uma das atrações culturais mais visitadas do mundo, recebendo milhões de pessoas todos os anos. A sua missão continua a ser a de preservar, estudar e partilhar um património artístico e histórico que pertence a toda a humanidade.
Praça de São Pedro
O Abraço da Igreja
A Praça de São Pedro (Piazza San Pietro) foi projetada para inspirar admiração e para acolher as vastas multidões que se reúnem para ver o Papa e participar nas cerimónias religiosas. A sua conceção genial pertence a Gian Lorenzo Bernini, que a projetou no século XVII sob o pontificado do Papa Alexandre VII.
A praça é composta por duas áreas principais:
- A Praça Ovular: A parte mais icónica é a sua vasta elipse, um espaço monumental que consegue criar uma sensação de acolhimento apesar da sua escala colossal. Bernini desenhou-a para simbolizar o abraço da “Igreja-mãe” a acolher os fiéis e a unir a humanidade. No centro desta elipse, ergue-se o Obelisco do Vaticano, um monólito de granito egípcio com 25 metros de altura, trazido para Roma no ano 37 pelo imperador Calígula. O obelisco funciona como o ponto central de toda a praça. De cada lado do obelisco, encontram-se duas fontes idênticas, uma de Bernini e outra de Carlo Maderno, que acrescentam simetria e beleza ao conjunto.
- A Praça Trapezoidal: Mais perto da basílica, a praça assume a forma de um trapézio, cujos lados se abrem em direção à fachada da igreja. Este desenho cria um efeito de perspetiva forçada (perspetiva acelerada) que corrige visualmente a largura da fachada de Maderno, fazendo-a parecer mais alta e mais próxima.
A característica mais distintiva da praça é, sem dúvida, a sua magnífica colunata. Duas vastas galerias semicirculares, formadas por 284 colunas dóricas maciças dispostas em quatro filas, rodeiam a praça elíptica. Por cima das colunas, encontram-se 140 estátuas de santos, que parecem vigiar a praça. Bernini calculou a disposição das colunas de forma tão precisa que, se um visitante se posicionar sobre um dos discos de pedra no chão da praça (os “focos” da elipse), as quatro filas de colunas alinham-se perfeitamente, parecendo uma única fila.
Transformando um Espaço Caótico
- Antes de Bernini: Antes da intervenção de Bernini, o espaço em frente à Basílica de São Pedro era uma área vasta, irregular e caótica. A necessidade de organizar este espaço para acomodar as multidões e criar uma entrada digna para a maior igreja da cristandade era evidente.
- O Projeto de Bernini (1656-1667): Em 1656, o Papa Alexandre VII encarregou Bernini de projetar a praça. O desafio era enorme: criar um espaço aberto que não diminuísse a majestade da cúpula de Miguel Ângelo, que corrigisse os problemas de perspetiva da fachada de Maderno e que permitisse que o maior número possível de pessoas visse o Papa quando ele desse a sua bênção.
- Soluções Geniais: Bernini respondeu com a sua engenhosa solução da colunata elíptica. Esta forma permitia abraçar um espaço vasto e, ao mesmo tempo, manter a cúpula visível à distância. A colunata não é um muro fechado, mas sim uma estrutura permeável que permite a entrada e saída fluida da multidão, servindo de moldura para a basílica sem a oprimir.
- Função Contínua: Desde a sua conclusão em 1667, a Praça de São Pedro tem sido o palco de alguns dos momentos mais importantes da história da Igreja Católica. É aqui que se realizam as Audiências Gerais do Papa às quartas-feiras, as celebrações da Páscoa e do Natal, e é para onde os olhos do mundo se viram durante a eleição de um novo Papa, à espera do “fumo branco” que sai da chaminé da Capela Sistina.
Hoje, a Praça de São Pedro continua a ser um triunfo da arquitetura e do urbanismo, um espaço que consegue ser, ao mesmo tempo, monumentalmente grandioso e profundamente acolhedor.
